À primeira vista, vídeos de rotina parecem inofensivos. Uma pessoa liga a câmera, mostra o que faz antes de sair de casa, organiza seus produtos, comenta o dia, passa maquiagem, aplica skincare, penteia o cabelo, escolhe roupa, compartilha um pensamento rápido. Tudo parece leve, íntimo e até relaxante de assistir. E talvez seja justamente por isso que esse tipo de conteúdo tenha se tornado tão poderoso. Vídeos de rotina — especialmente os chamados“get ready with me” (GRWM) — não se apresentam como discurso duro de venda nem como publicidade tradicional. Eles se apresentam como cotidiano. E é justamente esse enquadramento que faz com que possam afetar mais do que parecem. Quando algo chega com aparência de espontaneidade, intimidade e normalidade, tende a ser percebido com menos filtro crítico — mesmo quando está organizando padrões, desejos e expectativas sobre aparência.
O crescimento desse tipo de conteúdo não é um detalhe dentro do universo digital. Ele ajuda a explicar como a estética da rotina se tornou uma das formas mais eficientes de ensinar o que parece “normal” em relação ao corpo, à pele e à própria imagem. O editorial científico de 2026 sobre cosmeticorexia aponta que o fenômeno é intensificado por redes sociais e por plataformas que recompensam justamente conteúdo orientado por rotina e autoapresentação focada na aparência. Em outras palavras: não é só o produto que importa. Importa também a forma como o produto entra em cena — como ritual, hábito, tempo de tela, sequência de passos e linguagem compartilhada de cuidado. Quando a rotina vira espetáculo recorrente, ela também vira referência.
O poder da rotina está na aparência de normalidade
Uma publicidade tradicional deixa mais clara sua intenção: vender, convencer, persuadir. Já um vídeo de rotina parece menos ameaçador. Ele chega como conversa, bastidor, companhia. A pessoa que assiste não sente necessariamente que está recebendo instrução; sente que está “acompanhando” alguém. Mas acompanhar alguém é uma forma poderosa de aprender o que parece razoável, desejável e esperado. Em termos psicológicos e socioculturais, esse tipo de conteúdo participa da construção de normas informais. Se uma rotina longa aparece todos os dias como algo casual, ela pode começar a parecer básica. Se muitos produtos entram como parte “natural” do preparo, o excesso deixa de parecer excesso. Se todo vídeo associa bem-estar à aparência polida, a própria ideia de se sentir bem pode começar a se confundir com se apresentar bem.
Isso ajuda a entender por que vídeos de rotina não são apenas entretenimento visual. Eles funcionam como pequenas aulas de autoapresentação. E isso importa porque a literatura recente sobre redes sociais e imagem corporal mostra que o impacto negativo não está apenas no tempo de uso, mas na experiência específica que as plataformas promovem: comparação social, foco em self-presentation, busca de validação, internalização de padrões e contato repetido com imagens idealizadas. Em adolescentes e jovens, isso pode estar associado a piora de bem-estar, aumento de preocupação com aparência e maior vulnerabilidade a leituras mais rígidas sobre si.
O que um GRWM ensina sem dizer que está ensinando
Um “get ready with me” raramente diz explicitamente: “faça assim para ser aceita”, “use isso para ser melhor”, “organize sua aparência deste jeito para valer mais”. Ainda assim, esse conteúdo pode ensinar tudo isso indiretamente. Ele ensina pelo ritmo, pela repetição, pela visualidade, pela calma aparente, pela normalização de certos passos e pela associação entre preparação estética e vida social. O que se aprende ali não é apenas um tutorial. Aprende-se também:
- quanto tempo parece aceitável dedicar à aparência;
- quantos produtos parecem “básicos”;
- que tipo de pele ou imagem parece desejável;
- o que fazer antes de encontrar outras pessoas;
- o que mostrar do próprio rosto;
- e qual estética de si parece mais admirável ou “em dia”.
Esse tipo de aprendizagem é especialmente potente porque vem disfarçada de cotidiano — e o cotidiano é um dos lugares mais fortes de produção de norma social.
A força desses vídeos também tem relação com uma ideia central dos estudos sobre redes sociais: o foco crescente em self-presentation. Self-presentation, em termos simples, é o esforço para organizar como se quer ser percebido pelos outros. Estudos recentes mostram que maior foco em self-presentation nas redes está associado a mais sintomas de ansiedade e depressão, pior qualidade de vida e menor bem-estar, especialmente em jovens que já vivem maior pressão de imagem. Quando vídeos de rotina se tornam uma forma central de conteúdo, eles podem reforçar a ideia de que até os momentos mais simples do dia precisam ser pensados em chave de apresentação, performance e legibilidade estética.
A intimidade performada torna tudo mais convincente
Existe um segundo elemento importante nesses vídeos: a sensação de intimidade. Quem assiste a um GRWM costuma ter a impressão de estar vendo alguém “de verdade”, em um momento autêntico, sem a estrutura rígida da propaganda clássica. Isso aumenta confiança e percepção de proximidade. Pesquisas sobre relações parasociais mostram que vínculos unilaterais com figuras de mídia e influenciadores podem ser especialmente relevantes na adolescência e juventude, participando da formação de identidade, admiração e pertencimento. Quanto mais um criador parece íntimo, acessível e “real”, mais sua rotina tende a ser lida como referência plausível e legítima — e não como algo idealizado ou distante.
É esse o ponto que torna o efeito dos vídeos de rotina tão sofisticado. Eles não influenciam apenas porque mostram produtos. Influenciam porque transformam o corpo e a preparação estética em território de convivência simbólica. A pessoa não está só vendo o que alguém faz no espelho; está acompanhando o modo como alguém organiza sua presença no mundo. E essa cena vem embalada de proximidade, naturalidade e repetição. Em psicologia social e comunicação, isso importa muito. Um padrão que parece próximo e cotidiano costuma ser mais fácil de internalizar do que um padrão que se apresenta como publicidade ostensiva.
Quando rotina vira régua
O problema, portanto, não está em existir vídeo de rotina. O problema aparece quando esse formato deixa de ser um conteúdo entre outros e passa a funcionar como régua difusa do que parece normal. Se o público começa a sentir que “todo mundo” tem rotina maior, pele melhor, preparo mais elaborado e mais controle da aparência, a consequência não é apenas desejo de consumo. Muitas vezes é aumento de comparação, sensação de atraso, autocrítica e pressão para organizar o próprio rosto, corpo e imagem nos mesmos termos. Pesquisas sobre comparação com influenciadores e uso do Instagram mostram justamente que a comparação ascendente com figuras de mídia pode mediar piora de apreciação corporal e aumento de insatisfação. O GRWM, nesse contexto, não é apenas um formato fofo. É também uma interface de comparação.
Essa lógica ajuda a entender por que o conteúdo pode pesar mais do que parece em públicos muito jovens. Uma revisão sistemática de 2024 sobre redes sociais e insatisfação corporal em pré-adolescentes e adolescentes apontou consenso relevante entre estudos mostrando associação entre uso de redes, padrões de engajamento problemático, foco em beleza idealizada e maior insatisfação com imagem corporal. Em 2025, pesquisas também voltaram a mostrar associação entre foco em self-presentation nas redes e pior bem-estar em adolescentes mais jovens. Quando um formato como GRWM entra cedo nesse cenário, ele pode não apenas vender produto — pode ensinar cedo demais que o valor da preparação pessoal está ligado à apresentação estética permanente.
O consumo entra como continuação da rotina
Outro aspecto importante desses vídeos é que eles reduzem a distância entre experiência pessoal e consumo. Não há uma quebra clara entre “estou mostrando meu dia” e “estou mostrando o que uso”. O produto entra na narrativa da vida, e isso o torna mais naturalizado. O consumo deixa de aparecer como decisão pontual e passa a ser percebido como ingrediente da rotina. Em termos de comportamento, isso aproxima compra de pertencimento. A pessoa não deseja apenas um item; deseja entrar em um jeito de existir que aquele item parece materializar. É nesse ponto que o consumo se torna aspiracional. E é também nesse ponto que vídeos de rotina podem ser mais persuasivos do que parecem: não porque empurram uma venda de forma agressiva, mas porque integram o produto a uma estética de vida que o público aprende a admirar.
Essa lógica ajuda a compreender por que o tema da cosmeticorexia se encaixa tão bem no debate sobre GRWM e vídeos de rotina. O editorial de 2026 aponta que o fenômeno é reforçado por plataformas que premiam conteúdo de rotina e autoapresentação focada na aparência. Isso significa que não se trata apenas de vender mais produtos. Trata-se de construir culturalmente a ideia de que a pele precisa de atenção constante, que a rotina longa é normal, que o monitoramento é cuidado e que corrigir a aparência é parte básica da vida. Quando essa proposta entra em vídeos leves, íntimos e repetitivos, ela se torna ainda mais eficaz — e mais difícil de questionar.
Não se trata de demonizar o formato
Importa dizer isso com clareza: nem todo GRWM faz mal, nem toda rotina compartilhada é opressiva, nem todo vídeo de preparação gera sofrimento. O ponto não é condenar o formato, mas entender sua potência. Vídeos de rotina podem ser criativos, engraçados, afetivos e até úteis. Mas, quando reproduzem sem crítica um padrão muito rígido de cuidado, comparação e preparação estética, eles participam de um ecossistema que naturaliza vigilância sobre aparência. Para criadores, isso significa que o formato exige mais responsabilidade do que parece. Para quem assiste, significa que vale desenvolver mais consciência sobre o que esses vídeos fazem parecer “só normal” — quando, na verdade, ajudam a deslocar a régua do normal.
Talvez a melhor pergunta não seja “esse vídeo está vendendo alguma coisa?”, mas:
“Que tipo de relação com a aparência esse vídeo está ajudando a tornar cotidiana?”
Se a resposta envolver rigidez, insuficiência, ansiedade ou ideia de que sempre falta mais um passo, mais um produto e mais uma correção, então o impacto desse conteúdo provavelmente é maior do que parece. E esse é exatamente o tipo de leitura que a categoria “Redes Sociais, Imagem e Consumo” precisa ajudar a construir.
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