PÚBLICO JOVEM

Cosmeticorexia em crianças e adolescentes

Quando skincare, redes sociais e aparência começam cedo demais

A cosmeticorexia tem chamado atenção especialmente quando aparece em crianças, pré-adolescentes e adolescentes. Nessa fase da vida, a relação com o corpo, a aparência, o pertencimento e a imagem ainda está em formação — e o impacto das redes sociais pode ser muito intenso.

Vídeos de rotina de skincare, “arrume-se comigo”, testes de produtos, busca por pele perfeita e conteúdos esteticamente muito produzidos podem ensinar, desde cedo, que cuidar da aparência é uma obrigação constante, e não apenas uma escolha leve de autocuidado.

Esta página foi criada para ajudar famílias, responsáveis, educadores, influenciadores e marcas a entenderem melhor esse fenômeno.

Por que falar de crianças e adolescentes?

Nos últimos anos, profissionais de saúde, pesquisadores e veículos de imprensa passaram a observar com mais atenção o crescimento de conteúdos de skincare feitos por crianças e adolescentes nas redes sociais.

Uma reportagem da BBC, republicada no Brasil pelo portal O Povo, descreveu casos de meninas muito jovens gravando rotinas de skincare e maquiagem, algumas usando produtos desde a infância, com forte presença em plataformas como TikTok, YouTube e outras redes. A reportagem também apontou que o termo cosmeticorexia vem sendo usado para descrever uma preocupação pouco saudável com a pele “perfeita” desde cedo, associada ao uso excessivo de cosméticos.

Esse debate também aparece em pesquisas recentes. Um estudo publicado em Pediatrics analisou 100 vídeos do TikTok com criadores de conteúdo de 7 a 18 anos, mostrando que as rotinas apresentavam, em média, seis produtos, custo médio de US$ 168 por rotina e baixa presença de protetor solar, com apenas 26,2% dos vídeos incluindo esse item. O estudo também observou exposição a ingredientes com potencial de irritação, alergia de contato e sensibilidade ao sol.

Esse cenário preocupa porque crianças e adolescentes podem:

  • ainda estar formando sua autoimagem;
  • ser mais vulneráveis à comparação social;
  • reproduzir rotinas vistas nas redes sem compreender riscos;
  • associar valor pessoal à aparência;
  • usar produtos inadequados para a idade;
  • sentir pressão para parecer “em ordem” o tempo todo.

O que é cosmeticorexia em crianças e adolescentes?

Quando falamos de cosmeticorexia em crianças e adolescentes, estamos falando de uma relação com cosméticos, skincare, aparência e autocuidado que começa a ficar excessiva, rígida, ansiosa ou emocionalmente pesada.

Não se trata de dizer que todo interesse por beleza é um problema. Gostar de se arrumar, ter curiosidade por produtos ou brincar com a própria imagem pode fazer parte da vida. O ponto de atenção aparece quando a aparência passa a comandar demais o humor, a comparação, o comportamento e a sensação de valor pessoal.

Em crianças e adolescentes, esse tema merece cuidado especial porque a busca por aprovação, pertencimento e identidade ainda está sendo construída. Quando redes sociais, consumo e padrões de pele perfeita entram cedo demais, o autocuidado pode deixar de ser leve e começar a funcionar como cobrança.

O problema não é simplesmente usar um produto. O problema é quando a aparência começa a ocupar espaço demais na cabeça, no humor e na forma como a criança ou adolescente se sente consigo.

Como isso pode aparecer na prática?

A cosmeticorexia pode aparecer de forma gradual. Muitas vezes, começa como curiosidade, inspiração ou brincadeira, mas vai se transformando em uma rotina rígida, comparativa e difícil de flexibilizar.

Sinais que merecem atenção:

  • preocupação intensa com pele, rosto ou aparência;
  • vontade de usar muitos produtos, mesmo sem necessidade;
  • interesse por produtos adultos, como ácidos, clareadores, retinoides ou antienvelhecimento;
  • comparação frequente com influenciadores ou colegas;
  • sofrimento quando a pele não está “boa”;
  • checagem constante no espelho ou na câmera;
  • culpa por não seguir uma rotina;
  • medo de aparecer sem maquiagem, filtro ou preparação;
  • resistência a sair, gravar, ir à escola ou encontrar pessoas por causa da aparência;
  • fala recorrente de que “nunca está bom o suficiente”.

Um sinal isolado não define um problema. O que merece atenção é o conjunto: frequência, intensidade, sofrimento e prejuízo na rotina.

Redes sociais, comparação e “rotinas perfeitas”

As redes sociais não mostram apenas produtos. Elas mostram rotinas, estilos de vida, pele perfeita, preparação, antes e depois, filtros, iluminação, comentários e validação pública.

No caso de crianças e adolescentes, esse ambiente pode funcionar como uma “aula visual” sobre o que parece ser normal, desejável ou necessário. O problema é que, quando o ideal aparece o tempo todo, ele pode começar a parecer o mínimo.

O estudo publicado em Pediatrics observou que vídeos de skincare com criadores de 7 a 18 anos alcançavam grande visibilidade, com média de 1,1 milhão de visualizações por vídeo analisado, o que mostra o alcance potencial dessas rotinas entre públicos jovens.

Quando uma criança ou adolescente aprende a se ver pela lógica do feed, a aparência pode deixar de ser apenas uma parte da vida e virar uma tarefa constante de correção.

Produtos demais, cedo demais

Além da dimensão emocional, existe também uma preocupação dermatológica. Crianças e adolescentes podem se interessar por produtos criados para adultos, como esfoliantes, ácidos, retinoides, clareadores e produtos antienvelhecimento.

Reportagens recentes com especialistas destacam que crianças pequenas, de 8, 9 ou 10 anos, têm aparecido em rotinas com múltiplos produtos, muitos deles inadequados para a idade. Dermatologistas alertam sobre o uso de ácidos, retinoides, produtos clareadores e esfoliantes por crianças e adolescentes.

O estudo publicado em Pediatrics também identificou exposição a ingredientes potencialmente irritantes, risco de dermatite de contato alérgica e sensibilidade ao sol em rotinas de skincare divulgadas por jovens no TikTok.

Produtos que merecem cuidado especial em crianças e adolescentes:

  • ácidos esfoliantes;
  • retinoides;
  • clareadores;
  • produtos antienvelhecimento;
  • esfoliantes agressivos;
  • muitos ativos combinados;
  • fragrâncias irritantes;
  • rotinas longas sem orientação.

Em caso de dúvida sobre pele, acne, irritação, alergia ou uso de cosméticos, o ideal é buscar orientação dermatológica.

Quando a aparência começa a pesar por dentro

A cosmeticorexia não envolve apenas produto ou rotina. Ela também pode envolver comparação social, ansiedade com a aparência, autocrítica, vergonha e sensação de insuficiência.

Em crianças e adolescentes, isso pode ser especialmente delicado porque o sentimento de pertencimento e a construção da identidade ainda estão em desenvolvimento.

Alguns sinais emocionais que merecem atenção:

  • sofrimento intenso por detalhes pequenos da aparência;
  • irritação ou tristeza quando não consegue seguir a rotina;
  • medo de ser visto sem preparação;
  • vergonha de pele, rosto ou corpo;
  • isolamento social ligado à aparência;
  • comparação constante nas redes;
  • frases frequentes como “estou feio(a)”, “minha pele está horrível”, “não posso sair assim”;
  • sensação de que só ficará bem quando “corrigir” algo.

Quando a aparência começa a comandar demais o humor, a rotina e a autoestima, vale olhar com mais cuidado.

Para pais e responsáveis

Se você é mãe, pai ou responsável e percebe que uma criança ou adolescente está muito preso(a) à aparência, skincare, maquiagem, filtros ou comparação nas redes, o primeiro passo não precisa ser proibir tudo de forma imediata.

O mais importante é abrir conversa, observar o contexto e entender que função esse cuidado está ocupando.

Como abrir uma conversa

Em vez de começar com críticas como “isso é bobagem” ou “você está exagerando”, pode ajudar fazer perguntas abertas:

  • O que você gosta nessa rotina?
  • O que você sente quando faz skincare?
  • Você se sente mal quando não consegue fazer?
  • Você está se comparando com alguém?
  • Tem algum vídeo ou perfil que faz você sentir que precisa mudar algo?
  • Isso está te deixando mais tranquilo(a) ou mais preocupado(a)?

A ideia é entender antes de corrigir. Muitas vezes, a criança ou adolescente já está sofrendo e precisa de escuta, não de julgamento.

O que observar no dia a dia

  • aumento repentino de preocupação com pele ou rosto;
  • compras ou pedidos insistentes de produtos;
  • uso de produtos inadequados para a idade;
  • sofrimento quando não pode usar maquiagem, filtro ou skincare;
  • evitação de escola, fotos, vídeos ou encontros;
  • comparação frequente com influenciadores;
  • irritação, vergonha ou culpa ligada à aparência;
  • tempo excessivo diante do espelho ou da câmera.

Como colocar limites

Colocar limites não precisa significar desvalorizar o interesse por beleza. Pode significar proteger a criança ou adolescente de excessos, produtos inadequados e pressões que ainda não consegue avaliar sozinho(a). Boas práticas:

  • combinar o que pode e o que não pode ser usado;
  • evitar produtos adultos sem orientação;
  • conversar sobre filtros e edição;
  • limitar compras por impulso;
  • acompanhar perfis e conteúdos consumidos;
  • valorizar interesses que não dependem da aparência;
  • incentivar descanso das redes.

Quando buscar ajuda profissional

Vale considerar ajuda profissional quando a preocupação com aparência começa a gerar sofrimento persistente, prejuízo na rotina ou impacto importante nas relações. Sinais de atenção:

  • ansiedade intensa;
  • isolamento;
  • queda importante de autoestima;
  • sofrimento frequente com espelho, câmera ou fotos;
  • evitação de atividades;
  • autocrítica muito dura;
  • uso insistente de produtos inadequados;
  • conflitos recorrentes em torno da aparência.

Buscar ajuda não significa que alguém falhou. Significa reconhecer que sofrimento real merece cuidado.

Para influenciadores e criadores de conteúdo

Quando o público inclui crianças, pré-adolescentes ou adolescentes, a responsabilidade de comunicação aumenta. Conteúdos de skincare podem parecer leves, mas também podem ensinar o que parece necessário, desejável ou “normal” para uma idade em que a autoimagem ainda está em formação.

Boas práticas:

  • evitar apresentar rotinas extensas como necessidade universal;
  • não tratar pele perfeita como obrigação;
  • contextualizar que nem todo produto serve para todo mundo;
  • evitar linguagem de urgência ou medo;
  • não incentivar uso de produtos adultos por crianças;
  • lembrar que filtros, luz e edição alteram a aparência;
  • evitar transformar insegurança em gatilho de venda;
  • falar com cuidado quando houver público jovem.

Influência não é só alcance. Influência é o efeito que uma mensagem pode ter sobre quem ainda está aprendendo a se ver.

Para marcas, empresas e equipes de atendimento

Marcas e empresas também têm responsabilidade quando comunicam produtos de beleza, skincare e autocuidado para públicos diversos. Quando crianças e adolescentes estão expostos a conteúdos de beleza, é importante evitar mensagens que transformem aparência em obrigação, consumo em solução emocional ou cuidado em cobrança.

Boas práticas institucionais:

  • revisar linguagem de campanhas;
  • evitar promessas exageradas;
  • não incentivar uso precoce de ativos inadequados;
  • orientar equipes de atendimento;
  • ter cuidado com públicos vulneráveis;
  • não usar insegurança como estratégia de venda;
  • promover informação clara e responsável.

Perguntas frequentes

Toda criança ou adolescente que gosta de skincare tem cosmeticorexia?

Não. Interesse por beleza, cuidado e estética pode fazer parte da vida. O ponto de atenção aparece quando há excesso, rigidez, sofrimento, comparação constante ou impacto no humor e na rotina.

Skincare é proibido para adolescentes?

Não necessariamente. Mas produtos e rotinas devem ser adequados à idade, à pele e à necessidade real. Em caso de acne, irritação, alergia ou dúvida sobre produtos, a orientação dermatológica é recomendada.

O problema está nos cosméticos?

Não apenas. O problema costuma estar na relação construída com a aparência, a rotina, a comparação e a sensação de necessidade constante de correção.

Como saber se virou sofrimento?

Vale observar se a aparência começa a comandar demais o humor, se há culpa quando a rotina falha, se a comparação é constante, se a criança ou adolescente evita situações por causa da aparência ou se o tema ocupa espaço demais na cabeça.

O que fazer se eu estiver preocupado(a)?

Abra uma conversa sem julgamento, observe padrões, coloque limites quando necessário e busque orientação profissional se houver sofrimento intenso ou prejuízo na rotina.

Fontes e leituras recomendadas

  • Reportagem da BBC republicada pelo portal O Povo sobre crianças, skincare e cosmeticorexia. [link.springer.com]
  • Estudo “Pediatric Skin Care Regimens on TikTok”, publicado em Pediatrics, sobre rotinas de skincare em vídeos com criadores de 7 a 18 anos. [pmc.ncbi.nlm.nih.gov]
  • Reportagem da GZH sobre crianças, adolescentes, skincare e riscos do uso inadequado de produtos. [link.springer.com]
  • Reportagem da CNN Brasil sobre estudo relacionado a trends de skincare no TikTok e riscos para adolescentes. [jcimcr.org]

Quer entender melhor a cosmeticorexia?

O Projeto Cosmeticorexia reúne conteúdos, materiais educativos, curso, certificação e informações para ampliar a conversa sobre aparência, autocuidado, redes sociais, consumo e saúde mental.

Informação, conscientização e cuidado sobre a relação entre cosméticos, imagem e saúde mental

Rua Manuel da Nobrega, 354
Paraíso – São Paulo / SP
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Conteúdo informativo e educativo. O quiz não substitui avaliação profissional.
Em caso de urgência em saúde mental, procure atendimento imediato.

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